GESTÃO DO CONHECIMENTO: ONDE EXATAMENTE ISSO SE ENCAIXA?

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Há algumas semanas eu me peguei pensando nessa questão enquanto desenhava a nova estrutura de processos da empresa onde estou no momento. Não que eu já não soubesse onde eu estava inserido dentro da estrutura mas me perguntei: por ser uma área ainda em fase de descobrimento, principalmente aqui no Brasil, será que em todas as empresas o “Knowledge Manager” responde ao CTO (Chief Technology Officer)? Não deixa de ser uma pergunta retórica já que em meu último artigo eu analisei pontos de uma entrevista do CKO (Chief Knowledge Officer) da NASA. Ou seja, a NASA tem toda uma estrutura de KM! Mas da NASA pra nossa realidade há uma galáxia de distância… e sem trocadilhos.

Troquei algumas mensagens com a Camila Pires, fundadora da Rede Indigo e mais do que uma especialista na área de Gestão do Conhecimento, para saber qual era a visão dela sobre essa questão e de repente então contrapor nossas visões. Bem, o fato é que não há muito o que contrapor.

Camila me respondeu com um breve e sonoro “depende”. Mas calma, porque na verdade depende mesmo! Segundo ela, a gestão do conhecimento só atende plenamente seu propósito quando está alinhada aos objetivos estratégicos da organização. Por isso, o ideal é ter uma equipe dedicada e no melhor cenário ligada a um CKO mesmo. Por outro lado, sabemos que não é a realidade das organizações. Neste caso, ela defende que o profissional de GC esteja ligado a uma área que possua uma visão sistêmica e uma atuação com perfil de consultoria interna.

“Como sou a favor de gerar resultados de forma incremental, acredito que em qualquer área com patrocínio já é um ótimo começo, principalmente se for criado um comitê multidisciplinar para tomar decisões compartilhadas.” (Camila Pires, Rede Indigo)

Vale frisar que a abordagem norteamericana de GC está fortemente orientada sobre as tecnologias de informação (IT oriented), o que vai completamente de encontro a abordagem oriental de Nonaka e Takeuchi em seu livro onde desenvolveu-se a ideia sobre a chama espiral do conhecimento. Na abordagem oriental a visão de GC é muito mais holística, bastante ligada a representações dos elementos e de suas influências na organização. Nonaka e Takeuchi introduziram o conceito do “ba” que é um ideograma kanji que, em sua parte esquerda, representa a terra, a água fervente, o crescimento e a parte direita significa a capacidade de realização (enable). Um lado designa um potencial e o outro indica um tipo de motor ou um movimento que proporciona uma transformação. Qualifica-se como um “good ba” as situações relacionais que energizam as pessoas tornando-as criativas, dentro de uma interação positiva e dinâmica. Nonaka define o “ba” como um espaço partilhado para a emergência de relações. Esse espaço poderá ser físico (como um escritório ou outros locais de trabalho), mental (experiências compartilhadas, ideias ou ideais) ou toda a combinação dos dois. Para o autor, o que diferencia o “ba” das interações humanas ordinárias é o conceito de criação de conhecimento. O ba fornece uma plataforma que, dentro de uma perspectiva transcendental, integra toda a informação requisitada (…)

Todo esse passeio conceitual exatamente ilustra a visão que ambos – Camila e eu – temos sobre o posicionamento da GC numa visão de alinhamento aos objetivos estratégicos da empresa. Vejo inclusive bastante razoável a ideia de iniciar a área de GC exatamente orientada a TI, seja numa estrutura de CTO ou CIO de modo a trabalhar essa capacidade de realização (enable) que Nonaka e Takeuchi descrevem. Obviamente as estratégias de GC são definidas independentemente do ferramental tecnológico a ser escolhido mas é inegável que um bom sistema de gestão colaborativo dá um suporte importante a manutenção das idéias e do compartilhamento.

Após então essa fase de desenvolvimento e maturação da área de GC, pode-se derivar para uma área única e que responda diretamente a um CKO e esse por sua vez ao CEO. Isso daria a área de GC o status correto de disciplina-chave e fundamental a todas as outras áreas da empresa, numa visão estratégica mas também de apoio ao negócio.

Pra finalizar, segue uma visão sistêmica de GC que utilizo bastante de forma ilustrativa em minhas apresentações. Há várias outras, mas eu acredito na seguinte abordagem:

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NOTA DO EDITOR: Este artigo foi originalmente publicado por Rogério Pitzer no LinkedIn Pulse citando uma entrevista publicada aqui no blog. Gostamos tanto deste e de outros textos dele, que o convidamos para colaborar com nossa equipe. Será ótimo contar com o ponto de vista de um profissional que está atuando com gestão do conhecimento do lado de dentro de uma organização.

 

ROGÉRIO PITZER

Rogerio Pitzer, gestor do conhecimento, engenheiro e pai em tempo integral. Curioso e persistente por natureza, já atuou em empresas dos mais diferentes ramos e portes. Além de atuar no mundo corporativo, colabora atualmente em dois livros a serem publicados no mercado americano em 2017: “Evaluating Media Richness in Organizational Learning” e “Social Media for Knowledge Management Applications in Modern Organizations”. Para saber mais sobre sua formação e experiência profissional, acesse seu perfil no Linkedln.