A FORÇA DA INFORMAÇÃO E DAS TECNOLOGIAS DIGITAIS PARA CONECTAR REFUGIADOS

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Um dado que vi em uma série multimídia do jornal Washington Post sobre a proliferação de barreiras em diversas partes do mundo me chocou: existem atualmente 63 fronteiras com muros ou cercas separando países vizinhos. Muitas delas são motivadas pela crise migratória global, a pior desde a Segunda Guerra Mundial. Segundo o relatório anual Tendências Globais – Deslocamento forçado em 2015 (em inglês), existem mais de 65 milhões de deslocados por guerras e conflitos em todo o mundo.

Mas como fazer para transformar estes muros em pontes? As tecnologias digitais podem contribuir para isso. Para os refugiados, o acesso à internet ou a um telefone celular é tão importante quanto água, comida e abrigo, conforme revelou o estudo Conectando Refugiados: Como a Internet e a Conectividade Móvel podem melhorar o Bem-Estar e Transformar a Ação Humanitária (em inglês), do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e da empresa de consultoria Accenture.

Após ouvir refugiados e funcionários da Acnur em 44 países e mapear o acesso à rede, a pesquisa concluiu que a conectividade é fundamental para a segurança dos refugiados – há inúmeras possibilidades de usar celulares para acessar mapas e informações sobre proteção, assistência humanitária e serviços de saúde. Além disso, o acesso à internet e a celular é essencial para a comunicação com parentes e amigos – Facebook, Skype, Viber e WhatsApp são os aplicativos de redes sociais mais populares entre os refugiados. As tecnologias podem constituir, ainda, ferramentas para ensino a distância, atendimento médico remoto e pagamentos online.

No entanto, para além dos muros físicos, existem barreiras econômicas, tecnológicas e culturais que impedem ou prejudicam a conectividade dos refugiados. Nas áreas rurais, com dificuldades para acesso à eletricidade, apenas 1 em 6 refugiados (17%) tem acesso à cobertura 3G, 20% não têm acesso algum à internet móvel e somente 22% têm celulares. Nas áreas urbanas, o cenário é mais positivo: 90% dos refugiados têm acesso à cobertura 3G e 68% têm celulares. Ainda assim, o alto custo para se adquirir um celular e um plano de internet e o fato de muitos aplicativos serem em inglês continuam sendo grandes obstáculos.

Em busca de soluções

A fim de enfrentar tais questões, a Acnur criou um programa para incentivar parcerias com a sociedade civil, a comunidade de refugiados e os setores privados e públicos para promover usabilidade (por meio de treinamentos e acesso a conteúdos relevantes), disponibilidade de infraestrutura (conexão à internet e eletricidade) e acesso a celulares por valores subsidiados.

Além da ONU, a sociedade civil e as instituições privadas estão desenvolvendo iniciativas com o propósito de auxiliar os que são forçados a deixar seus países. Na Alemanha, que vem recebendo um número significativo de refugiados, existem inúmeros exemplos de apps destinados a facilitar a integração com a sociedade. O Ankommen é um deles, que oferece um curso online de alemão e informações sobre asilo. Outro exemplo alemão é o Bureaucrazy, que foi desenvolvido por dois sírios para auxiliar a enfrentar a burocracia do país. Instituições alemãs que ajudam refugiados receberam, por meio do projeto Reconnect, lançado pelo  Google.org e a NetHope, 25 mil Chromebooks (notebook da Samsung).

E tem mais. O húngaro InfoAid divulga informações sobre rotas de transporte, fechamento de fronteiras e asilo. O Refugees Welcome é uma espécie de Airbnb para refugiados, disponível em vários países. A Techfugees é uma organização com sede em Londres que reúne startups e profissionais de tecnologia para criar soluções para problemas de refugiados. O site Apps For Refugees lista diversos aplicativos e sites para facilitar a integração dos refugiados à sociedade, separados por assuntos (comunicação, educação, saúde, etc.) e regiões.

No Brasil, o Helping Hand oferece, em português, inglês, espanhol, francês e árabe, informações sobre instituições que ajudam imigrantes e refugiados e solicitar online o registro em uma delas. No país, segundo dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), existem atualmente 8.863 refugiados reconhecidos, de 79 nacionalidades distintas (28,2% deles são mulheres). Os principais grupos são compostos por nacionais da Síria (2.298), Angola (1.420), Colômbia (1.100), República Democrática do Congo (968) e Palestina (376).

Iniciativas como as citadas – e felizmente existem muitas outras – ilustram a força da rede para conectar refugiados. As tecnologias podem ser grandes aliadas não somente na gestão da informação como também para compartilhamento de conhecimento e formação de redes, contribuindo, assim, para a inserção dos deslocados nos países onde buscam abrigo e apoio para recomeçarem suas vidas.

 

LARRIZA THURLER

Larriza Thurler é tecnófila e hiperconectada. Jornalista e doutoranda em Ciência da Informação, encontrou nas pesquisas sobre redes sociais, dinâmicas de comunicação e gestão do conhecimento seu habitat perfeito. Para saber mais sobre sua formação, experiência profissional e reflexões sobre seus interesses de pesquisa, acesse seu perfil no LinkedIn.