[ENTREVISTA] CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL CONTA COMO FUNCIONA UMA DAS PLATAFORMAS DE CONHECIMENTO DA ORGANIZAÇÃO

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Uma rede de pessoas com acesso a dados abertos para pensar colaborativamente soluções globais para o desenvolvimento humano. É o que propõe o Banco Mundial, que sugere, ainda, que as pesquisas devem aproveitar de maneira mais eficaz as experiências em países em desenvolvimento para serem mais úteis aos formuladores de políticas públicas. Para contribuir com isso, a organização lançou em 2010 a iniciativa “Dados abertos, conhecimento aberto, soluções abertas”. Fazem parte dela seis plataformas de conhecimento, que são administradas por membros da organização e contam com a participação de parceiros em todo o mundo.

Uma das plataformas é a World Bank Secure Nutrition Knowledge Platform, criada em 2012 para preencher as lacunas de conhecimento operacional entre agricultura, segurança alimentar e nutrição, a fim de maximizar o impacto das políticas e programas nessas temáticas.  Aaron Buchsbaum é um dos consultores de gestão do conhecimento e comunicação que faz parte da equipe da Secure Nutrition em Washington, nos Estados Unidos. Ele nos contou como são superados os desafios para ajudar atores em todo o mundo a trabalharem juntos a fim de identificar, elaborar, implementar, monitorar e avaliar intervenções na agricultura para manter a segurança alimentar – que é a capacidade de todas as pessoas terem a todo o tempo acesso econômico e social a alimentos nutritivos de modo a atingir suas necessidades diárias para uma vida ativa e saudável.

 

Você gerencia muitas informações sobre nutrição, segurança alimentar e agricultura e interage com diversos atores em todo o mundo. Conte para a gente como isso funciona no seu dia a dia.

Trabalho há um ano e meio com consultor no Banco Mundial, com projetos de serviços de conhecimento e gestão do conhecimento na plataforma Secure Nutrition. A ideia é juntar redes sociais (como LinkedIn, Facebook, Twitter), sites, encontros pessoais, eventos, newsletters, parcerias com diferentes organizações e especialistas e então colher e compartilhar informações e conversar com pessoas.

A peça técnica que conecta tudo isso, a razão por que isso existe é uma abordagem sobre projetos internacionais de desenvolvimento humano sob o aspecto da nutrição envolvendo uma gama abrangente de setores. Por exemplo, como a nutrição pode se encaixar em pessoas que estão trabalhando em projetos de agricultura, bem-estar, desenvolvimento infantil ou educação? Esse modo de pensar e fazer desenvolvimento internacional tem suas próprias métricas e sistemas de avaliação, maneiras de ação no campo, envolvendo diversos stakeholders de diferentes organizações. São muitas informações que tentamos encontrar e enviar para diversas pessoas e até mesmo convencê-las a, por  exemplo, plantar um tipo de milho que será mais benéfico nutricionalmente para as crianças e que poderá gerar maior receita para o produtor, porque será visto como algo que é melhor nutricionalmente para as crianças. Tentamos fazer as pessoas pensarem nisso também, pois elas podem estar ocupadas com suas próprias expertises e podem não estar conectando essas diferentes partes.

Temos essa parte tecnológica, como as que mencionei, como LinkedIn e sites, mais outras ações, como eventos de aprendizado, conversar com as pessoas, decidir que tipo de informação enviar para quem. Meu dia a dia é gerenciar essas pequenas partes, conectando-as, seja fazendo uma newsletter para ser disseminada para 6000 pessoas, seja atualizando sites a partir de diferentes fontes, começando uma conversa ou postando algo nos grupos do LinkedIn, escrevendo tuítes para serem disseminados, pensando em alguma palestra que possa ser interessante.

 

Com tantas informações sendo disseminadas em diversos sites de redes sociais não-corporativos, como lidar com a questão da recuperação da informação?

O Banco Mundial tem muitas comunidades de práticas, de interesses ou redes de conhecimento informais. Algumas delas são apenas internas, com restrições para fazer parte delas; outras são internas e abertas, que podem incluir pessoas com interesses naquelas temáticas; outras funcionam como ponte entre o Banco Mundial e outras organizações e pessoas. Elas diferem no modo como são usadas e  administradas.

Em relação ao Secure Nutrition, cada plataforma tem uma abordagem e um propósito diferente. Os fóruns do LinkedIn são mais informais, posso colocar um post ou iniciar uma conversa e as pessoas verão na sua timeline na medida em que elas é atualizada. Essa plataforma não é para registro, é para compartilhar e ver o que está sendo postado. Tem um pouco de serendipidade – oh, aconteceu de encontrar isso no meu grupo! Não invisto muito tempo planejando o que colocar no grupo do LinkedIn; se sei que algo é interessante eu posto, pois sei quem está no grupo e os motivos pelos quais estão. É um nível bem informal de compartilhamento de conhecimento.

Tenho algumas ideias para usar esses grupos ainda melhor, pois mesmo em um contexto informal, há pessoas que contribuem, compartilham e escrevem muito mais do que as outras pessoas. É um percentual muito pequeno, mas eu poderia reunir essas pessoas e dividiria papeis. Perguntaria para os mais ativos: vocês querem fazer este grupo mais funcional? Vocês vão investir seis horas por mês aqui, postando ou liderando discussões? Ou tentando achar novos membros? Ou falando com membros offline?

O Twitter é semelhante, mas o legal dele é que tem hashtag e o sentido da hashtag é o de curadoria. Quando usamos hashtags, basta clicar nelas. Não há nenhuma biblioteca física com tanta informação. Ter a opção de ter uma hashtag com tantos hiperlinks é fascinante.

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Em relação a repositório de informações, temos o site SecureNutrition, onde categorizamos e organizamos publicações e fontes. Em relação ao Banco Mundial como instituição, existe uma plataforma de conhecimento aberto, a Open Knowledge Repository, lançada em 2012. Por meio dela, o Banco Mundial recolhe, divulga e preserva permanentemente sua produção intelectual na forma digital. Há uma estrutura tecnológica robusta para mapear quem está usando a plataforma e quais documentos estão sendo baixados.

 

Como você mantém as pessoas engajadas nas comunidades e motivadas para compartilhar conhecimento?

Para muitos deles, é uma maneira de promover o trabalho, é uma maneira de chamar a atenção para o que estão fazendo. Também há aqueles que ganham pontos, são recompensados por compartilhar conhecimento. Há outras pessoas que são intrinsicamente motivadas, elas são champions (os multiplicadores). Eles querem mesmo ver o tema nutrição no seu trabalho, nos seus países, nas suas famílias. Eles são apaixonados pelo tema, em primeiro lugar, e serão mais ativos.

Quando vejo as pessoas mais ativas nas comunidades em que atuo, fazendo várias perguntas, e eu não as conheço, geralmente mando um chat para agradecer o trabalho ativo no grupo e saber se a pessoa quer falar ao telefone para que eu possa conhecer um pouco do trabalho que faz, saber o que posso fazer por ela, com ela ou ainda o que ela pode fazer pelo grupo. É interessante ter um contato especial com pessoas com esse perfil e tentar fazer uma conexão entre os mais ativos.

As pessoas que estão nesses grupos também querem ter bom conteúdo. Então só postamos o que é relevante para o trabalho delas e só fazemos eventos diretamente relacionados ao que estão fazendo. Quando fazemos isso, há chance de ter mais pessoas engajadas.

Como gestor de comunidades de prática, também monitoro o que é postado para fazer conexões. Se alguém coloca alguma dúvida e sei quem é a pessoa para responder sobre aquele tema, mando um email pedindo gentilmente se ela pode responder. Isso faz com que a pessoa se sinta valorizada e a dúvida seja esclarecida rapidamente. Por isso aconselho a ter gestores de comunidades de prática  até que, com o tempo, essas conexões aconteçam naturalmente e tenha uma mudança no comportamento, com as pessoas valorizando o conteúdo postado e se sentindo bem compartilhando conhecimento.

 

Você serviu no Corpo da Paz dos EUA em Burkina Faso, de 2008 a 2010, trabalhando na comunidade de saúde local e melhorando os links com o Ministério Nacional de Saúde. Como foi essa experiência?

Difícil colocar em palavras tudo que aconteceu lá. Realmente me senti um estrangeiro, eu era não apenas o único americano, mas o único que falava o meu idioma e que tinha as minhas memórias e o meu conhecimento naquela temática. Aprendi muito sobre comunidade, pois estava vivendo em uma cidade com cinco mil pessoas, conhecia e trabalhava com muitas delas todos os dias. Vivia, dormia e trabalhava no mesmo lugar. Tinha que falar com muitas pessoas para fazer algo sustentável. Não era fácil, no meu caso eu tinha que falar sobre nutrição infantil, o que deveria ser oferecido às crianças quando elas deixam de tomar leite materno. Há alguns alimentos que são muito bons nessa fase de transição. Se eu conversasse apenas com a equipe de saúde e com as mães sobre isso, seria bom. Mas e sobre o resto da família? Ou o diretor da clínica de saúde, que poderia ter uma reputação ou autoridade maior? E sobre o prefeito ou vice-prefeito? Associação de produtores rurais? Se todos começassem a falar sobre nutrição infantil, porque estão todos envolvidos de algum modo, quanto mais se conectar esses pontos, mais aumentam as chances de mais pessoas terem informações sobre o tema e terem apoio.

 

Quer saber como a NASA gerencia seus desafios de gestão do conhecimento? Confira nossa entrevista com Ed Hoffman, Chief Knowledge Management da agência espacial norte-americana: gestaoconsciente.com.br/entrevista-cko-da-nasa/

 

 

LARRIZA THURLER

Larriza Thurler é tecnófila e hiperconectada. Jornalista e doutoranda em Ciência da Informação, encontrou nas pesquisas sobre redes sociais, dinâmicas de comunicação e gestão do conhecimento seu habitat perfeito. Para saber mais sobre sua formação, experiência profissional e reflexões sobre seus interesses de pesquisa, acesse seu perfil no LinkedIn.